Sextas-feiras

Era mais uma sexta-feira. Dia de ir para o colégio de manhã, voltar para casa e começar a aproveitar o fim de semana. Aproveitar o fim de semana, leia-se, ir no shopping, ver um filme, comprar uma roupa nova para usar na social do grupo de estudos da próxima semana.

Como de costume, uma sexta-feira por mês, eu e Mari íamos ao shopping jogar conversa fora, montar alguns looks na Zara, jogar mais conversa fora, coisa de menina. Eu sempre comia um crepe, ela  preferia alguma coisa japonesa. De praxe nossos encontros, nossa sintonia e nossa cumplicidade. Mas naquela sexta-feira em especial, quase não saía de casa porque não queria me abrir, a cabeça estava confusa, o coração apertado, dia de ficar quietinha e calada...
Mas do lado da Mari era impossível ficar quietinha e calada. Sabe aquela amiga que você não consegue esconder nada? É a Mari pra mim. Até quando eu fico quietinha e calada ela arranca de mim o que quer que esteja acontecendo no momento.

Há mais de 2 anos Rodrigo não sai da minha cabeça, e Mari, de todas as minhas boas amigas, é a única que sabia desse meu sentimento sufocador pelo meu melhor amigo. Como lidar com essa angústia sozinha? Não dava. Então Mari estava ali, nas sexta-feiras, me ouvindo falar incansavelmente dele, me dando conselhos, me fazendo rir, pensar e refletir.

Rodrigo é aquele tipo de cara bom amigo, interessante, com aquele ar de bad boy e que não faz muito esforço para ser maravilhoso. Pelo menos era assim que eu o enxergava. Ele nunca soube do que eu sentia exatamente pelo fato de eu não querer colocar em risco uma amizade de quase 5 anos. E Mari concordava comigo, mas dava aquela forcinha: "Calma Fernanda, quem sabe um dia?" para me colocar pra cima, e ela sempre conseguia, mas a verdade é que no fundo ela sabia que ali já era jogo perdido. Gostar do amigo? Não não.

Ilustração: Júlia Mileo/ @mileojulia
Eu nunca entendia o que me atraía no Rodrigo, talvez a fase de vida que eu estava passando, as descobertas, a curiosidade. Mas aquilo já me incomodava, me consumia, não fazia bem. Muito tempo que não o via, afinal eu mudei de escola e ele também. Era só um telefonema ali, uma mensagem de texto acolá.
Eu e minha mania de ficar presa em algo do passado que acho que tem sentido. Boba!

Estava definitivamente pronta para deixar pra lá, me libertar desse sentimento, amadurecer. E em uma bela sexta-feira no shopping com Mari, em mais uma de nossas conversas sérias e engraçadas sobre nossa sabedoria de vida aos 16 anos de idade, percebi um novo universo que eu estava vivendo.

Em um piscar de olhos, percebi que minha vida já tinha mudado e eu que insistia em permanecer no passado, sofrendo, estagnada. Mas a vida em um segundo acontece. E aí? Você se dá conta que existe uma vida para ser vivida. Que precisa caminhar pra frente. Assim, simplesmente. Naturalmente. E foi. Foi o passado. Foi o Rodrigo, que hoje continua um grande amigo. Uma década de amizade existe, e eu agradeço a mim mesma por nunca ter tentado fazer dessa amizade algo mais.

Continuo com o amigo. Agora tenho mais bagagem, mais experiência. E uma certa sabedoria que  não tinha aos 16: tudo passa. Tudo melhora.
Paciência e maturidade são dois mantras de vida trazidos para mim por  meio dessa situação adolescente.

Hoje, muitos anos depois, eu e Mari não temos mais tempo para ir no shopping toda sexta-feira, mas atingimos um patamar telepático na nossa amizade. Sabemos quando precisamos uma da outra e nosso elo continua aquela coisa forte de antes. Mudou mas é igual, sabe? É maduro e especial. Na vida a gente perde pra ganhar. Foi mais uma lição que tirei de uma situação.

Algumas sextas-feiras no caminho e o Caio chegou. Já contei pra vocês sobre o Caio? Acho que não, né? Mas tava ontem falando com a Mari de como ele é charmoso, inteligente, super parecido comigo, adora os Beatles...

*A crônica é um gênero textual que traz histórias sobre o cotidiano. Este texto é fictício, obra criativa e independente.

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